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Em tempos de patrulhamento de opinião nas redes, é fundamental levar o debate da mobilidade urbana para muito além da arena eleitoral, pois quando as discussões estão nessa seara, tensionam-se os ânimos e surgem soluções imediatistas, centradas em interesses muito mais ligados a grupos políticos e empresariais do que aos interesses dos moradores das grandes cidades, que passam horas do dia estressados num trânsito cada vez mais caótico. As cidades têm evoluído e os velhos modelos de organização urbana baseados em ônibus nas ruas, estacionamentos gratuitos e trânsito livre para carros e motos trafegarem está fadado ao fracasso.

A nossa cultura patrimonialista, que ainda insiste em atrelar a imagem de sucesso financeiro à aquisição de um automóvel, é página passada nos grandes centros urbanos. Cidades como Paris, Lisboa, Londres e São Paulo apresentam modelos de redução de velocidade nas vias urbanas e presença cada vez maior de meios de transporte como bicicletas e patinetes nas vias públicas e nós ainda estamos na fase de discussão de projetos de asfaltamento de vias públicas para dar passagem a… carros! Carros e mais carros continuam a lentificar o trânsito de nossas avenidas e os ônibus continuam a seguir trajetos sem grandes lógicas de ocupação e utilidade.

É preciso pensar fora da caixa e ter coragem de romper o velho paradigma de transporte “ônibus-carro-moto”. Para discutir a necessária evolução das políticas de mobilidade urbana, com um enfoque muito claro na humanização das relações de transporte, impacto de tecnologias e cidades inteligentes, realizaremos o primeiro “Fórum Maranhense de Mobilidade Urbana”, através da Comissão de Assuntos Municipais e Desenvolvimento Regional da Assembleia Legislativa do Maranhão no dia 11 de dezembro de 2019, no auditório Neiva Moreira, no Complexo de Comunicação da ALEMA, a partir das 8:00h. Separamos o evento em três painéis: “Panorama da Mobilidade Urbana de São Luís”, “Cidade Inteligente e Mobilidade Urbana” e “Os impactos da tecnologia no transporte público”. Cada um deles será apresentado e discutido por pessoas com ampla expertise em suas áreas de atuação.

Destaco aqui, como um aperitivo do evento, o painel “Cidade Inteligente e Mobilidade Urbana”. A internet das coisas está presente em nossa vida e não seria diferente no trânsito das cidades. Estamos a todo tempo conectados e com isso geramos dados. Dentro desta perspectiva, contaremos com a exposição da jornalista e pesquisadora Rafaela Marques, que tem desenvolvido estudos voltados para políticas urbanas. Rafaela vai falar sobre “Princípios de desenvolvimento orientados ao transporte sustentável”. Ainda no mesmo painel, o tema “A Cidade de São Luís e as suas mobilidades” será apresentado pelo professor Alcântara, pós- doutor em Sociologia.

Na esteira de toda a inovação tecnológica desta década, não poderíamos deixar de fora uma análise técnica dos impactos dos apps de transporte na vida das grandes cidades. Muitas das soluções apresentadas na era dos smartphones geraram problemas derivados justamente da tecnologia que trouxe novos modais para as cidades, a exemplo dos aplicativos de motoristas (Uber, Cabify, 99, Mary Drive, etc). O juiz da Vara de Interesses Difusos e Coletivos, Douglas de Melo Martins, vai tratar do recorrente desinteresse do uso do transporte público tradicional. Recentemente, estive com o juiz Douglas e ele defende políticas públicas para estimular o uso do transporte público em detrimento do transporte individual.

Em outra frente, teremos a palestra “Mobilidade Inteligente”, do professor Areolino de Almeida, que já foi coordenador de um projeto de desenvolvimento de semáforos de trânsito com programação via internet. Areolino é engenheiro eletricista e doutor em Engenharia Aeronáutica e Mecânica pelo ITA/Universidade de Hannover e tem atuação em Sistemas Mecatrônicos e Inteligência Artificial. Abordaremos ainda a segmentação do transporte público. Segmentar significa atender cada público dentro de suas diferentes especificidades. Um exemplo muito marcante de segmentação é o desenvolvimento de aplicativos de transporte específicos para mulheres, diante do reconhecimento dos frequentes casos de abusos contra elas no transporte público. O CEO do app Mary Drive, Felipe Martins, primeiro aplicativo de transporte específico para mulheres, vai detalhar a sua experiência na área.

Entre o nascimento das boas ideias e a execução destas sob forma de políticas públicas, há um grande caminho. O ponto de partida é a união da sociedade na discussão dos grandes temas que lhe pertinem. O primeiro Fórum Maranhense de Mobilidade Urbana não tem a pretensão de ser o ponto de partida, muito menos o ponto de chegada, mas temos a convicção de que certamente estamos nos mobilizando… todos convidados!!!