Quinze anos de medicina me ensinaram que o bom médico exercita o raciocínio clínico. Diante de uma doença de difícil reconhecimento, procuramos buscar pistas no organismo do paciente para chegarmos, a partir dali, a um diagnóstico bem-sucedido. O bom político, assim como o bom médico, deve ser também um estudioso, mas da observação dos movimentos da sociedade, das tendências de comportamento coletivo e das oportunidades de ocupar espaços.

Com a vitória maiúscula do grupo que conduziu o governador Flávio Dino à reeleição, já se projeta para 2022 um cenário em que não se visualiza a ressurreição dos velhos atores da oligarquia Sarney e seus consortes no estado. As previsões mais realistas sobre quem governará o Maranhão daqui a quatro anos pautam-se na participação direta de 3 atores da política maranhense: dois deles, Weverton e Brandão, saíram fortalecidos diretamente das urnas e são sucessores com vocação natural à cadeira dos Leões. O terceiro, mais recentemente, tem-se destacado pelo papel de conciliador e pelo trânsito em todos os poderes constituídos no estado, além da grande influência junto aos 41 deputados estaduais do Maranhão. Seu nome? Othelino Neto.

Em que pesem as diferenças entre os três políticos, todos têm um traço em comum: a necessidade de definição do destino de Flávio Dino. Se conseguir viabilizar-se candidato competitivo e necessário das esquerdas à Presidência, que é a condição primordial para que encampe a batalha rumo ao Planalto, Dino criará as condições objetivas perfeitas para abrir 3 vagas de disputa majoritária aqui no Maranhão: governador, vice e senador. Se Dino não conseguir viabilidade, “restar-lhe-á” a honrosa vaga de senador da chapa, permitindo-lhe conquistar, agora mais fortalecido, o protagonismo político em Brasília e manter vivo seu sonho presidencial, adiado para 2026. Este é o nosso primeiro cenário e, nele, Flávio precisará conduzir o processo local e operar o milagre de convencer um destes homens a abrirem mão de suas pretensões: o primeiro é Brandão, que será governador por 9 meses e poderá disputar a reeleição; o segundo é um senador da República, eleito com 2 milhões de votos, amplamente articulado no estado e que reúne condições ideais para ser um fenômeno nas urnas da próxima eleição. O fato é que se Dino falhar e não houver uma ampla pactuação dentro do grupo, abre-se a possibilidade de enfrentamento entre Brandão e Weverton, sendo Othelino um provável fiel da balança para o cargo de vice-governador. Falarei agora sobre este segundo cenário.

Com Brandão à frente do governo, definido como candidato à reeleição e Weverton irredutível quanto à sua posição de concorrer, sabemos que de plano haverá adesão do DEM à chapa do líder maior do PDT. Primeiro, porque a relação de Weverton com Juscelino Filho hoje é a melhor possível no plano local. Segundo, porque é inegável o interesse do 1º suplente Robert Bringel (DEM), tio de Juscelino, em assumir a vaga de Weverton em definitivo a partir de 2023.

Em relação ao PSDB, partido que Brandão comandou no Estado por muitos anos, é provável que este lhe dê apoio, o que garantiria inclusive a Roberto Rocha a sobrevivência política no Estado após o término de seu mandato de senador. Alguns analistas da política local já externaram sua posição, de que a balança penderá ao final para Brandão por conta de “deter a chave do cofre do estado” por 9 meses. O acompanhamento realista e desapaixonado da realidade recente tem nos mostrado que a situação financeira do estado é difícil, muito mais complexa do que nos anos em que Zé Reinaldo controlou o governo, investiu maciçamente nos municípios e depois disso, reelegeu-se e ainda fez o seu sucessor, o eterno Jackson Lago. A grande verdade é que ninguém pode duvidar da incrível capacidade de Weverton e do PDT de montarem em nível estadual a já conhecida “máquina de vencer eleições” do partido na capital maranhense.

Hoje, Brandão tem a preferência da maioria do secretariado dinista. Enquanto isso, Weverton tem a predileção de quase todos os deputados estaduais, vários federais, além de um respeitável batalhão de prefeitos. Vale ressaltar que colabora para o bom trânsito de Weverton no Poder do Rangedor o excelente relacionamento político e pessoal que o senador mantém com Othelino. Quem venceria este confronto? Quem viver, verá! Eu tenho o meu palpite.

O terceiro cenário, capaz de acalmar ânimos e pretensões dos dois lados, têm surgido a partir do que chamo de “liderança suave”. Falo aqui da possibilidade do presidente da Assembleia, Othelino Neto, ser o nome de consenso do grupo liderado hoje por Flávio Dino. De fala mansa, jeito discreto e investido de autoridade pelo espírito republicano que lhe tem conduzido desde que assumiu a Presidência, Othelino é elogiado de maneira recorrente por todos os deputados da casa, sejam da situação ou de oposição. Esses atributos garantiram-lhe uma reeleição fácil, inclusive antecipando o pleito do segundo biênio, onde foi aclamado novamente por unanimidade. Hoje, inegavelmente goza da confiança do governador do estado e do senador Weverton. Seu nome também aglutinaria vários setores do secretariado estadual. Seu grande desafio, neste momento, é transcender os muros do palácio Manuel Beckman e ganhar os quatro cantos do Maranhão, fortalecendo-se também a partir da condução política das eleições na Ilha e nas principais cidades do interior já em 2020.

Uma articulação com Flávio Dino presidente poderia ter Othelino como cabeça de chapa, Brandão como nome do grupo para o senado e Erlânio Xavier, homem de confiança de Weverton e presidente da FAMEM eleito com o apoio de 203 dos 217 prefeitos, como vice-governador. Neste cenário de consenso, Erlânio conduziria o processo político para 2026, onde aí sim, uma ampla articulação poderia eleger Weverton governador e Othelino como candidato de peso a uma das vagas de senador daqui a duas eleições. São muitas situações envolvidas e muitas articulações a serem feitas, mas o reconfortante é saber que este grupo, que tem buscado a superação dos problemas crônicos do Estado, tem muitas opções e que,  marchando unido, tem tudo para permanecer por um bom tempo no comando do MA, pensando- o no longo prazo. É um belo exercício de futurologia, mas a política é, assim como a matemática, feita de várias condicionantes, equações e números e tem no tempo o seu ativo mais precioso.