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Quando temos a felicidade de viver mais um pouquinho, vamos nos acostumando com a tristeza de ver pessoas que faziam parte da nossa rotina partirem. Não deixa de ser um mecanismo de resistência da própria existência humana pra ir aceitando aos poucos a sua própria finitude. A morte de Gugu Liberato não deixa de levar um pouco da vida da nossa geração Y, esse sem fim de pessoas que viveram a infância e parte da adolescência na década de 80.

A minha geração cresceu numa infância pautada pela televisão e quase nada pela internet. Pra um adolescente de 15 anos hoje, falar em “Passa ou repassa”, “Viva a noite”, “prova da banheira” são coisas que não fazem qualquer sentido. Recordo-me bem do peso da TV pra minha geração. Dos costumes às roupas, dos brinquedos que nos eram sonho de consumo às músicas que nos ocupavam a mente, tudo era apresentado pela TV. Dominó, Polegar, cantores sertanejos, musas sensuais, tudo aquilo passou de maneira muito intensa nos finais de semana do SBT, num tempo em que as Organizações Globo eram um pouco menos hegemônicas.

Hoje, assisto a internet assumir de maneira brutal esse espaço de formação cultural. Os modelos de programas estrangeiros, as grandes franquias, além do gigantismo dos youtubers, são essas fórmulas que moldam a cultura pop em praticamente todos os lugares do mundo. Programas de música, reality shows com as fórmulas mais inusitadas possíveis, Netflix, Apple TV, Youtube, Youtube e mais Youtube. As pessoas hoje inverteram o fluxo de comando. Antes a TV ditava às pessoas o que consumirem. Agora, cada um controla o que vai assistir e quando vai assistir. O que passa na TV é reflexo do que se pede nas redes sociais, com as devidas adaptações de formato. Antes, precisava-se de sorte ou de um padrinho pra entrar no ramo do entretenimento, agora com uma câmera de celular qualquer pessoa pode, se dispuser de talento, alçar-se ao status de cybercelebridade.

Gugu vai fazer falta na TV… verdade que estava menos produtivo, mas mais maduro; a vida em família fez-lhe bem. É meio revoltante ver que um acidente doméstico tolo o matou. Coisas da vida… falo com a autoridade de quem tem medo de viajar de avião e que se impressiona com uma morte tão prematura. Gugu tinha saúde para pelo menos mais 15-20 anos de possibilidades na TV. Infelizmente, o nosso dia de partir não guarda correlação lógica com os riscos que assumimos. Schumacher viu Ratzenberger e Senna morrerem, construiu 7 títulos de Fórmula 1 e, já aposentado, teve um acidente que lhe legou um estado vegetativo numa estação de esqui. Minha mãe desde muito cedo me dizia: proteja sua cabeça, não deixe jamais alguém bater nela… tenho tentado protegê-la sempre e já ensino isso à minha Cecília, meu tesouro mais jovem.

Gugu deixou explícito seu desejo de doar órgãos e tecidos. Fica uma grande lição pra nós que estamos aqui, deste lado da vida… espero que alguém à beira da morte possa receber algum de seus órgãos e possa seguir uma existência ainda longa e produtiva. As doações de órgãos no Brasil ainda são muito inferiores ao que precisamos para salvar milhares de pessoas à espera de um transplante. No íntimo, as pessoas ainda não confiam suficientemente no sistema de saúde a ponto de acreditarem que, em caso de morte cerebral, realmente nada mais possa ser feito para salvá-las e que a retirada de órgãos para um transplante possa vir a ser uma desculpa pra não mais investirem nos seus tratamentos. Há quem acredite que seus órgãos possam ser retirados pra venda num fictício mercado paralelo.

Num momento em que precisamos tanto de identificação com nossas memórias antigas pra não ceder à ditadura do hiperfluxo de informações, de todos os tipos: das ultracientíficas às sórdidas fakenews, neste ponto, a partida de Gugu é uma injeção de desânimo nos saudosistas como eu. As relações líquidas do agora tornam os nossos valores menos valoráveis e as pessoas mais descartáveis. É preciso reinventar-se o tempo todo, pra não nos tornarmos obsoletos antes do nosso “prazo de validade”.

Gugu é o gênio que Roberto Marinho não conseguiu botar na televisão, na Globo. Ao lado de Silvio Santos, conquistou a audiência e não teve medo de mudar de emissora. Conseguiu ser referência na Comunicação implementando um novo jeito de fazer entretenimento. Vai valer de ensinamento para muitos iniciantes.

Por falar em gênios, é interessante lembrar da relação de Gugu e Silvio Santos. Silvio é um grande professor e Gugu foi, sem dúvidas, o mais destacado aluno moldado na escola do Señor Abravanel. Trabalharam juntos por cerca de 30 anos, até que Gugu resolveu trilhar outro caminho, na Rede Record.
Silvio Santos certamente está triste… é muito ruim para um mestre ver um pupilo partir antes dele. Antinatural e anticíclico. Sim! Silvio está triste! E eu também!