Na última semana, causou surpresa à população de São Luís a interdição de todo terminal da Praia Grande, que se transformou (logo após chiadeira geral de usuários e empresários) no fechamento de apenas duas plataformas do referido terminal…a mim, o infortúnio não causou qualquer surpresa. Em 12 de junho de 2019, protocolei indicação à Prefeitura de São Luís e ao Sindicato de Empresas de Transporte (SET), após receber laudo de engenharia condenando a estrutura do terminal. A verdade é que há uma falha evidente na relação entre Prefeitura de São Luís e SET. O custeio da reforma da estrutura do terminal e a assunção dessa responsabilidade têm sido o centro do litígio na justiça estadual entre o Palácio de La Ravardière e o empresariado do transporte. No meio do conflito, vidas humanas que custeiam um sistema de transporte sucateado, que periclita a vida dos usuários.

Criou-se a falsa premissa que fazer política de mobilidade urbana em São Luís é substituir frota de ônibus velho por veículos com ar-condicionado. Misto de engano com propaganda ruim. Política de mobilidade urbana é pensar a cidade de modo que o cidadão consiga chegar em seu trabalho, em sua casa, que os estudantes vão e voltem para a escola num espaço de tempo menor possível, com um trânsito de veículos e pessoas que seja humanizado e sustentável. São Luís não conseguiu traçar um caminho mínimo em direção a uma política de transporte que integre modais, que divida adequadamente o fluxo, que conscientize motoristas e pedestres.

Perceberam que esqueci dos ciclistas? Pois é, foi intencional… não temos qualquer tipo de política para bicicletas em uma capital com mais de 1 milhão de habitantes. Sabe por quê? Porque paramos no tempo, preocupados apenas com ar-condicionado nos ônibus, asfaltamento de péssima qualidade e tapa-buracos. É muito pouco para uma cidade com orçamento de 3,1 bilhões de reais. Para que se tenha ideia, é um orçamento discretamente superior ao de Teresina (3 bilhões), porém na capital vizinha foram destinados cerca de 700 milhões de reais em investimentos (mais de 20% do orçamento). Convido qualquer um dos leitores a conhecerem a capital do Piauí e verificarem que paramos no tempo em termos de modelo de cidade. Alguém poderia dizer: “ah, mas Teresina foi planejada!”. Verdade que foi planejada, mas a grande diferença entre a capital vizinha e a nossa cidade é justamente a fortunada sequência de gestões municipais com espírito desenvolvimentista, isto é: prefeitos em sequência que quiseram trabalhar de fato e estavam preparados para isso.

Respeito muito a figura do prefeito, amigo querido, homem de bem, mas silenciar neste momento não é opção. Edivaldo marcou um “gol de placa” quando conseguiu viabilizar cerca de 250 milhões de reais em empréstimos para investimentos, especialmente em infraestrutura: asfalto, reforma de praças e mercados, dentre outros. Erra de maneira retumbante ao não apresentar de maneira transparente e objetiva o plano de aplicação desses recursos. A cidade precisa saber claramente para onde vai cada centavo desses empréstimos e qual o cronograma de execução. A gestão nanica da SEMOSP dos últimos anos será agora testada. Sinceramente, não creio que o atual titular da pasta seja o homem para conduzir um programa de tal magnitude. O legado de Edivaldo, que deve definir os próximos anos de sua vida pública, está diretamente relacionado ao resultado positivo e impactante do “São Luís em Obras” … é a bala de prata do prefeito.  Diante disso, o momento é de profissionalizar a máquina pública!

Voltando ao problema do sistema de ônibus, há uma bomba-relógio em breve para ser detonada. As empresas perderam mais de 21% da venda de passagens mensal desde o início da licitação. Os motivos? Aplicativos como Uber e 99, sem esquecer do grande vilão do transporte público: a informalidade. Nesse quesito, a Prefeitura tem sido extremamente ineficiente na tentativa de combate-lo. O SET também precisa melhorar a gestão das empresas consorciadas. Os curtos/médios prazos imporão desafios decorrentes da própria mudança de modelo, já datado: redução de cobradores, quem sabe até a substituição total deles. Em meio a tudo isso, questões trabalhistas, econômicas e até humanitárias. Para solucionar os problemas, é preciso muito mais do que vontade dos gestores, necessita-se urgentemente de um plano de mobilidade urbana audacioso, com atores comprometidos e capazes de enfrentar os velhos paradigmas do transporte de São Luís. É preciso enfrentar as pressões políticas que querem criar e/ou manter linhas com baixíssima ocupação e que apenas geram prejuízos ao sistema; muito mais do que pequenos curativos, é fundamental o comprometimento com a solução sistêmica. São Luís pode e deve vencer o desafio de virar a página do transporte público ineficiente e desumanizado… é o que a cidade precisa e que o povo merece. Chega de amadorismo!