Que fique claro: sou um admirador do governador Flávio Dino. O verbo “admirar” vem do latim ad-, “para”, mais mirare, “olhar”. Olhamos para alguém com admiração porque temos a aprender de certa forma com esse alguém. Acontece que admiração não é um cheque em branco e muito menos um sentimento que valida todas as ações de uma pessoa.

Digo isso a dois públicos: o primeiro, formado por algumas pessoas queridas, que sempre me aconselham a pular pro barco da oposição a este governo, que felizmente aguenta resiliente e segue firme no deserto árido da crise nacional. Estas alegam que é mais fácil aparecer na mídia batendo no Executivo. Deixo-lhes claro que não entrei na política pra ganhar espaço com demolição de reputações e legados alheios. O segundo é o da nossa própria base, heterogênea, onde coexistem adversários de projetos políticos que adorariam propagar tese diversa da que levanto, objetivando desgastar-me com o governo, algo impensável no horizonte posto. A esses, digo: não conseguirão. Sou parceiro no projeto, mas ressalto que nunca fui e jamais serei vassalo no território livre das ideias.

É inegável que Flávio é o melhor quadro maranhense na atualidade e que tem sido capaz de gerenciar a máquina burocrática nesta caminhada de incertezas quanto à estabilidade democrática e à reação da macroeconomia. Contudo, uma das qualidades principais de um líder é a coerência e a caminhada de um líder político sempre gera fatos políticos. Assim, para que um fato tenha coerência, precisa apresentar uma sequência que dê um sentido lógico a quem o observa, de forma que não haja contradições ou dúvidas. Dino tem sido coerente em seus 5 anos de governo, mas nesta última semana, sou obrigado a discordar da forma que se deu o encontro com o ex-presidente José Sarney.

Nunca fui dos detratores da figura do Sarney aqui no estado. Sempre o considerei um homem inteligente, acima de tudo alguém que soube navegar de maneira extremamente oportunista nos diversos barcos que já viajou. De presidente do ARENA a garantidor dos governos de Lula e Dilma no Congresso Nacional, José Ribamar foi o ator mais movediço da história política da segunda metade do século XX e do começo do séc. XXI. Como parlamentar, teve um papel importante na criação da política de cotas raciais e na distribuição gratuita de remédios para portadores de HIV. Em sua acidental presidência da República, onde hiperinflação e corrupção o tornaram desastrosamente impopular, foi menor. Ainda assim, com essa carga de contradições, foi a figura maranhense mais conhecida na política até o momento.

O fato é que Sarney envelheceu. Aos 89 anos, com a força física diminuída e a saúde fragilizada, demonstra há pelo menos 4 anos um indiscutível afastamento do centro do poder em Brasília, aceitem ou não os saudosistas. No impeachment de Dilma, sua articulação, outrora infalível, não foi capaz de segurar o animus do PMDB no processo de ruptura com o PT. Já o enfraquecimento do grupo no estado foi um processo marcado pela fadiga de Roseana junto à classe política, à população e da incapacidade de Sarney Filho assumir o protagonismo familiar.

Rememorando a hierarquia de “O poderoso chefão”, Sarney passou da figura de “Don” à de “Consigliere” e hoje se concentra muito mais na manutenção de sua saúde do que na condução dos destinos políticos estaduais e federais. Importante destacar que se não está ainda albergado na macroestrutura do governo Bolsonaro, é justamente por este ocaso, fruto do desgaste perante à opinião pública e à própria senescência. A natureza do escorpião nunca muda. Se chamado fosse por Jair, com Bolsonaro Sarney estaria. Essa tem sido e sempre será sua práxis.

No processo político, nenhum homem ascende ao poder sozinho. Mesmo Jesus Cristo, em sua caminhada, seguiu com 12 apóstolos que lhe assistiram em momentos difíceis da jornada. Flávio Dino, carne, osso, acertos e erros, não rompeu um ciclo político de atraso no estado sozinho. Foi o somatório de forças de atores coordenados, com diferentes matizes ideológicas que lhe ascendeu aos Leões. É o governador que agregou em torno de si a maior base já vista em nossa história local recente, composta por parlamentares que utilizam como referencial teórico antitético na tribuna a luta contra o ciclo oligárquico do Sarney no estado.

Como ficarão os discursos agora? Qual a rotina retórica daqui pra frente, após relativizar-se as práticas da oligarquia em nome de um suposto referencial democrático que o ex-presidente do nada passou a representar? A real democracia pressupõe condições sociais, econômicas e culturais que permitem o exercício livre e isonômico da autodeterminação política. Isso em algum momento foi encampado por Sarney, na prática, em algum tempo? Questiona-se aqui sua legitimidade como referencial democrático. Sob a ótica de estandarte oligárquico, seu protagonismo é indiscutível.

Lembro da cascata de erros de Lula na política, desde seu primeiro mandato presidencial, que culminaram com sua prisão por parte das próprias forças que ele alimentou por anos. Recordo-me das concessões que fez e que lhe custaram não apenas um terceiro mandato, mas a própria liberdade, a morte da esposa, a distância da família. Valeu à pena essa coalizão democrática carcomida, que resultou na ascensão da quimera autoritária chamada Jair Bolsonaro?

Será que Flávio apresentar sua avaliação do momento atual a José Sarney serve para algo que não seja ressuscitar, mesmo que por breve período, o ícone de um grupo que merece ser página virada? Que Flávio não seja como Lula e que não lhe tenha como exemplo de escolhas, pois desejo ao governador a Presidência, jamais o fatídico destino do petista … quanto aos companheiros e companheiras de Parlamento que efusivamente reverberaram, em uníssono, este encontro inusitado, enevoado, como a salvação do Maranhão, reitero: jamais baterei palmas pra isso. Não por não ser do diálogo, mas por achar que não há sentido em repetir os mesmos erros, tentando as mesmas ações e composições com as mesmas pessoas, afinal, água e óleo não se misturam, mas a História, esta sim se repete…